03 Julho 2008

O pesadelo americano

Os telejornais de ontem mostraram imagens de uma mulher caída no chão da sala de espera de um hospital psiquiátrico na América, onde permaneceu durante uma hora, em agonia, até falecer.

Dois seguranças do hospital, um médico e outros funcionários espreitaram para a sala repetidas vezes, sem que nenhum deles se tenha sequer aproximado da mulher caída no chão. Há provas de tentativa de manipulação das imagens recolhidas pelas câmaras de vigilância, procurando-se ocultar o que é óbvio.

Nesta era de tantos progressos, na América ainda se morre vítima de indiferença.

27 Junho 2008

O "resto" do Europeu de Futebol

Adoro futebol, mas tinha decidido não escrever sobre o Europeu.
Achei que ignorar a competição era desta vez a melhor forma de me voltar a demarcar do exagero e da cegueira em torno da selecção e de reduzir aqueles marmanjos à sua insignificância.
Mas não resisto! Agora que estamos a chegar ao fim, não resisto!!!

Os meninos de coro portugueses mostraram o que não valem, e nem sequer foram capazes de fingir que estavam muito infelizes por isso.
Alguém os viu cansados, no final dos jogos, como ficaram os russos, os holandeses, os alemães? Nãããã! A maalta não se pode cansar muito, que a vida deles não é verde e vermelha!
Quase só Deco e Pepe tinham talvez algo para provar e fizeram-no. Na circunstância, mais valeu um pequenino e modesto português vindo do Brasil, cheio de força e habilidade, do que um convencido madeirense emprestado por Inglaterra, e cheio de mania e inépcia!

Outra boa notícia: os italianos que anti-jogam futebol foram para casa.

Mais coisas boas: aos presunçosos franceses calou-se-lhes o galo.

O Campeonato já podia ter acabado?

Ainda não!
Para a coisa ficar como deve ser, é preciso que nuetros hermanos arrasem a sobranceria alemã e os mandem para casa aprender a jogar futebol, que é uma coisa diferente de marcar golos!

E pronto! Não doeu nada, e até sinto o fígado mais aliviado!

24 Junho 2008

Ao amigo de Titofarpas

Titofarpas deu-nos o prazer de visitar o Assobio Rebelde no dia 17 de Junho e, a avaliar pelo que diz, gostou do que leu.

Parece que não foi o único. Segundo o próprio, também um amigo seu terá visitado o Assobio, no dia 19, e gostou tanto do que leu que se apressou a enviar as quadras por e-mail para Titofarpas. Tito, distraído, publica-as no seu blogue como se fossem de sua autoria, porque não viu que estavam aqui no Assobio.

Ao amigo, um obrigada pela atenção que nos dedica: as quadras foram publicadas aqui às 22h05 e às 23h56 já estavam no titofarpas.blogspot.com, o que significa que foi rápido a usar o e-mail.

Ao Titofarpas, peço apenas que cite as suas fontes com efeitos retractivos à data do parto do seu blogue.

19 Junho 2008

Em época de santos populares...

Teve sabor a salsicha
A derrota portuguesa
Cristiano esteve em campo?
Nem se deu pela proeza

Nani correu em via-verde
O Simão foi amarelado
Diz que o cruzamento foi tenso
Mas o Schweinsteiger saiu consolado

Enrolemos a t-shirt
O cachecol e a bandeira
Temos o rabinho entre as pernas
Acabou-se a chinfrineira

Vamos lá fazer as malas
Ó Scolari meu filho
O Chelsea já está à espera
Pingolim é matraquilho

(Pontos e vírgulas, todos aos seus lugares!)

17 Junho 2008

Baralhose

Andei um pouco distraída e (muito) ocupada durante uns tempos para poder dispensar a necessária atenção aos papéis que se amontoam na secretária cá de casa. Resultado: quando olhei para o lado, tinha uma pilha enorme de facturas e correspondências afins para organizar e arquivar.

Decidida a devolver a ordem ao caos, peguei naqueles pirinéus de papel e lá fui lendo e rasgando ou arquivando, conforme os casos. Eis, então, que a baralhose se instala.

A TMN envia-me uma carta para que desista dos serviços prestados pela Tele2 e adira ao serviço fixo "mais barato" da dita TMN. "A têmênê tem serviços para a rede fixa?", pergunto-me. Fico esclarecida na próxima carta; esta é da PT e também me oferece o mesmo serviço "mais barato", de braço dado e em total harmonia com a TMN.

A TV Cabo passou 3 meses sem me enviar facturas, ausência essa justificada mensalmente, via sms, por alegados "motivos técnicos". Ao fim dos três meses lá veio a factura de uns rechonchudos 70 euros para pagar, só que não vinha da TV Cabo, mas sim da ZON. À mudança de visual chama-se, portanto, "motivos técnicos".

Cereja em cima do bolo, o meu banco envia-me uma carta a dizer que foi actividada uma autorização de débito em conta pela Novis Telecom. "Pára tudo!!", digo eu, "com estes é que eu não tenho mesmo nada, por isso vamos lá ver o que se passa!". Olha, afinal tenho... A Novis comprou a Tele2 e portanto vou passar a receber facturas da Clix, a empresa do grupo que se encarrega das telecomunicações.

Como o serviço de apoio ao cliente da Tele2 foi por mim eleito nesse dia para desabafar, é de lá que registo o comentário mais curioso. Depois de eu ter dito à menina que não acho correcto ser o meu banco a informar-me, ainda que nas entrelinhas, destas mudanças, a menina responde "Minha senhora, lamentamos que o seu banco tenha sido tão eficiente. A Tele2 tenciona enviar uma carta aos seus clientes brevemente."

E lá está... eu telefonei há quase um mês e a carta de Tele2 tem data de dia 9 de Junho. Para eles, é suficientemente breve.

12 Junho 2008

Os Camionistas e o Meu Bolso

Diz o Crítico:
- Pronto! Quando alguém quiser, é só cortar uma estradita! A coisa, pelos vistos, resulta, e é sempre a bem de alguém. Estou para ver quem é que beneficia com isto! Não há-de ser a maioria, com certeza!...

E diz o Crédulo:
- Agora, os homens dos camiões já não vão aumentar os preços do transporte de mercadorias, e por isso os preços dos produtos nos supermercados não vão aumentar, e nós vamos todos ser muito mais felizes, todos, todos, mas mesmo todos, todos!

11 Junho 2008

A Força dos Camionistas

As coisas que eu descubro!...
"Meia dúzia" de camionistas sem civismo nem respeito por direitos fundamentais têm mais força neste país do que manifestações legais e legítimas.
Umas centenas de coletes amarelos selvagens à solta, em pontos estratégicos da rede viária nacional intimidam mais o governo do que cem mil professores em manifestação.
Ou há qualquer coisa de errado nisto, ou eu escolhi mal a profissão e a minha forma de estar na vida. Por muito menos, já vi muito boa gente levar com forças de intervenção em cima!
E agora o que acontece? As forças de segurança assistem! Afinal, parece que o que está a dar é mesmo apedrejar, intimidar, incendiar!
O país assiste a tudo isto, impotente, e ninguém faz nada? O que é que o Estado está à espera? Que acabe o Euro 2008 para levantarem o rabo dos sofás, e fazerem alguma coisa para acabar com esta vergonha que confirma a nossa queda para bananizar a república?
Ou será que ainda devemos agradecer a estes carroceiros por dizerem que deixam passar o pão e os medicamentos, numa atitude que eles julgam, certamente, ser magnânima, mas que só revela o original sentido da sua humanidade e da sua misericórdia?
Estamos tão no fundo como o combustível nas bombas!!!

05 Junho 2008

Ainda a Queda da Bancada na Santiagro...

A Câmara Municipal lançou ontem uma nota de imprensa a informar que, afinal, o espectáculo não estava licenciado porque... não precisava de licenciamento.
Dizendo e desdizendo, acha assim a Câmara que limpa a sua imagem, em nome da "verdade", e assim lava as mãos do problema, porque não era sua obrigação, nem da Protecção Civil, nem da Negdal, inspeccionar o equipamento (nem zelar pela segurança das pessoas!), uma vez que a responsabilidade é todinha da empresa a quem foi comprado o espectáculo.
Ficamos assim a saber que um qualquer irresponsável pode criar condições para matar uma data de gente, num espaço público, que é propriedade da Câmara e gerido por uma empresa com capitais da autarquia, porque não há ninguém que o impeça de o fazer. Pior, ninguém se acha com a obrigação de o fazer. Cúmulo dos cúmulos: dorme descansado não o fazendo.
A responsabilidade civil e criminal pode ser de quem montou a bancada, mas do ponto de vista da moral e da ética, não me parece que deva ser esta a postura adequada, e condeno-a veementemente.

Santiago do Cacém e a Santiagro - Que Futuro depois da Queda da Bancada?

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O Presente

A queda da bancada, na Santiagro, em Santiago do Cacém, deveria obrigar todos os responsáveis a reflectirem sobre as limitações que o actual recinto da Feira coloca, e que ficaram evidentes no passado sábado, com a multidão que acorreu para assistir ao espectáculo de country-rodeo:

1º Trata-se de um terreno praticamente plano em cada um dos três pisos, sendo que as poucas condições de anfiteatro natural não são aproveitadas para esse fim;

2º O terreno disponível para montagem do palco, da bancada e do picadeiro, por ser pequeno, obrigou a uma redução das áreas de circulação, às vezes demasiado exíguas, como é o caso do caminho de acesso ao palco (à noite, com mais visitantes, era sempre difícil circular entre as "tasquinhas", a zona do palco e a bancada). A demolição da antiga bancada de betão não trouxe melhorias, a este nível.

3º Muita da área em torno do picadeiro, à partida destinada ao público, foi utilizada como apoio ao espectáculo de rodeo (palco, écrans gigantes, descarga e acondicionamento de cavalos e touros), deixando livre para os espectadores apenas o topo sul do picadeiro, junto às tasquinhas, onde o aperto era visível.
O público de pé foi assim "empurrado" para trás da zona dos animais (com visibilidade muito reduzida) ou para a zona frontal à tal bancada, pondo em causa a própria visibilidade dos espectadores sentados nas primeiras filas da mesma (situação que teria gerado certamente algum atrito, se o espectáculo de rodeo tivesse chegado a realizar-se).

4º A aposta na criação de estruturas fixas para as tasquinhas tornou ainda mais inflexível o perfil do espaço, e reduziu ainda mais a sua já curta versatilidade.

5º O recinto da Feira (outrora implantado num deserto) está hoje completamente dentro da cidade, rodeado de habitações e de equipamentos públicos (escola e pavilhão desportivo), com todas as limitações que isso implica:

a) parqueamento e estacionamento manifestamente insuficientes para as necessidades;

b) saídas de emergência a desembocar em parques improvisados, ou em acessos atulhados de gente e de carros.


Pelo que fica dito se depreende que, nestas condições e neste espaço, a Feira não pode crescer.

Insistir em revitalizar "aquela" Santiagro, injectando capital em espectáculos e na sua ampla divulgação, parece necessário e acertado mas revelou-se afinal um erro.

Não se pode atrair público sem lhe oferecer condições (de visibilidade e de segurança) para o usufruto do espectáculo que paga.
Se o espaço é reduzido, não se pode ser megalómano - ninguém mete o Rossio na Rua da Betesga!

O Futuro

Se a entidade que organiza a Feira tem a ambição (que eu desejo) de fazer dela um grande acontecimento para a cidade de Santiago (e o município e o litoral alentejano), tem de ter a capacidade de encontrar um outro espaço, outras estruturas, outro planeamento.

É apenas de ambição que falo, ou da falta dela.
Quando há anos defendi que o futuro Auditório Municipal não deveria ser construído "encastrado" nos Pavilhões da Feira, é porque já achava que a Feira teria de sair dali, quanto antes, para poder crescer e afirmar-se. Não é de hoje esta minha convicção.

Quando critiquei a falta de polivalência e as limitações do próprio Auditório Municipal, é porque achei que não nos deveríamos contentar em usá-lo como apoio para os colóquios da Feira, mas o deveríamos pensar como um espaço cultural flexível e adequado às muitas (tantas!) necessidades da cidade, do município e da região.

Quando contesto as actuais condições da Feira e a sua localização, é porque ambiciono para a minha cidade e o meu concelho uma projecção e um prestígio que nos afirmem pela qualidade e pela criatividade.

A Santiagro precisa de um espaço, de preferência em anfiteatro natural, com bons acessos, facilidade de estacionamento, dimensão folgada e boa capacidade de crescimento, com vista a potenciar o seu desenvolvimento.

Por melhores que sejam as intenções e a vontade da organização, insistir em realizar a Santiagro no espaço actual e naquelas condições será sempre correr riscos desnecessários, e condenar o evento à morte por descrédito e/ou por asfixia.

Não gosto que Santiago do Cacém seja notícia (apenas) pelos piores motivos.
Não gosto de ver esta cidade e este município sempre a pensar "pequenino".
E não gosto de cair de bancadas. Desculpem, mas é mesmo uma coisa de que não gosto nada.

03 Junho 2008

Ainda a Federação e os Bilhetes dos Treinos

Rapidinho, Sua Majestade El-Rei Madaíl explicou que o dinheirinho dos bilhetes cobrados nos treinos era para a Câmara de Neuchatel pagar o relvado.
Então e a Federação Portuguesa de Futebol faz o quê ao seu (nosso!!!) dinheiro? É para eles andarem a passear o pedantismo de avião?
Não têm vergonha nenhuma, estes senhores!
E, como eles bem previram, lá está o estádio cheio de 12 000 tolos, a assistir a uma autêntica palhaçada, um desfile de poses fotogénicas, baptizado de treino!
Decididamente, esta gente anda a irritar-me!

A Selecção Nacional de Futebol, os Emigrantes e os Treinos do Euro2008

A Selecção Portuguesa de Futebol decidiu cobrar bilhetes para os treinos.
Deve ter sido a forma mais bela de agradecimento ao entusiasmo e à dedicação com que o portuga emigrante recebeu o autocarro da selecção à chegada à Suíça. "Já que são tão burros a ponto de estarem horas à nossa espera, também não se hão-de importar de pagar para nos ver dar uns toques!" - devem ter pensado os iluminados turistas do futebolês nacional.

Diz o ditado que presunção e água benta, cada um toma a que quer. Neste caso, aqueles indivíduos tomam a que lhes deixam tomar.
O que o portuga emigrante deveria fazer era, pura e simplesmente, virar as costas aos craques, deixá-los a treinar sozinhos, a jogar sozinhos e a falar sozinhos.
Às vezes, quando a humildade não é inata, é bom que haja alguém a reduzir-nos à nossa insignificância.
Mesmo que Ronaldo, Scolari & Companhia já fossem campeões europeus, nada justificaria tamanha arrogância, quanto mais nesta altura do campeonato, em que está tudo por fazer!

02 Junho 2008

Queda de Bancada na Santiagro-Santiago do Cacém


No sábado passado caiu uma bancada cheia de gente, na Feira agrícola de Santiago do Cacém, e a notícia encheu os noticiários do dia seguinte.
Como todos os que estavam naquela bancada, também eu caí com ela e, felizmente, fiquei por cima, à semelhança da grande maioria.
60 feridos foi o mínimo que poderia acontecer! Não sei como não morreram (morremos) uns quantos-muitos!
A responsabilidade é, ao que parece, da empresa que "vendeu" o espectáculo de rodeo, ao qual vinha acoplada a dita bancada, e respectiva montagem.
Mas nesta história há coisas que não podem deixar de ser ditas:

O que é positivo?

- O socorro (Bombeiros - grandes bombeiros!!!) funcionou de imediato, no segundo seguinte, com muita eficácia, rapidez impressionante e grande sentido de entreajuda;
- o Hospital do Litoral Alentejano (HLA) esteve à altura da situação e mobilizou todos os meios para assistir a catadupa de feridos, o que permitiu que saíssem de lá muito mais depressa do que numa situação "normal" de ida às urgências;
- A maioria dos que estavam na bancada não entrou em pânico, nem gritou, o que evitou certamente males maiores; diga-se que caímos quase em silêncio, talvez petrificados pelo insólito ou pelo medo;
- A organização da Feira cancelou o espectáculo, que ainda mal tinha começado, compreendendo que não poderia agir de outro modo.

O que é negativo?

- O bloqueio das saídas de emergência, que impediu a desejável circulação "em carrocel" das ambulâncias: não se compreende como é que a organização não tem mecanismos que impeçam efectivamente os visitantes de estacionar selvatica e inconscientemente onde não devem;

- a posição do Presidente da Câmara Municipal que, logo às 2 da manhã, à porta das urgências do HLA, declarou à Sic que a Câmara não tinha responsabilidades no sucedido porque o espectáculo nem sequer estava licenciado.

Acontece que a Feira é organizada por uma empresa, que se chama NEGDAL, na qual a Câmara tem uma grande fatia.
Acontece que o Presidente da NEGDAL é um vereador a tempo inteiro, membro do executivo camarário, responsável pelas feiras e mercados.
Acontece que o Presidente da Câmara estava no recinto da feira, para assistir ao espectáculo não licenciado (logo, ilegal!).
Acontece que o vereador-Presidente da NEGDAL também estava a assistir ao mesmo espectáculo, sentado na famigerada bancada, com a sua família, ele que até achou, antes do evento, que a bancada não era grande coisa (o que se depreende das suas declarações a uma estação de televisão).

Pergunto eu:

Se o espectáculo não estava devidamente licenciado, a Câmara não deveria tê-lo "embargado"?
Ao ir a um espectáculo não licenciado, o presidente da Câmara não está a legitimá-lo?

O vereador-Presidente não deveria ter condicionado a realização do espectáculo ao cumprimento de todas as formalidades por parte da empresa prestadora do serviço "rodeo+bancada"?

Só se fazem vistorias e só se pensa na segurança quando a licença tem de ser passada?
E a Protecção Civil?
Se alguém achou que a bancada não era segura, não lhe pesará a consciência por não ter feito nada para impedir que alguém lá se sentasse?

Quando este fim-de-semana os cidadãos entraram na Santiagro, entraram descansados num recinto e num evento de que a Câmara é o principal parceiro, em que investe anualmente verbas substanciais; os visitantes da Santiagro pensavam que podiam confiar numa entidade idónea, e confiaram no sentido de responsabilidade, na ética e no profissionalismo da organização do evento. Pelos vistos, enganaram-se e foram enganados.
Eu sei que, nestas ocasiões, toda a gente quer sacudir a água do capote, mas não me atirem areia para os olhos, porque já me chega a areia de que era feito o chão em que montaram a bancada.

A bancada caiu porque não a travaram. Era bom que alguém travasse esta vergonha!

30 Maio 2008

Amy Casa do Vinho

O microfone insistiu em não se segurar no suporte e, pior ainda, nas mãos dela. O sapato fugiu-lhe do pé, e foi o diabo para o apanhar. O nariz vermelho não parava de dar comichão, a guitarra eléctrica nunca se conseguiu ligar sozinha e teve de ser ajudada a sair do pescoço, parte das letras das canções apagaram-se do disco rígido, a voz já lhe doía antes de começar a cantar.

E foi mais ou menos assim que Amy Winehouse foi traída pelos seus (supostos) dotes no Rock in Rio...

A cantora admitiu em palco que deveria ter cancelado o concerto porque estava sem voz e não tinha sequer condições para segurar o microfone, quanto mais segurar-se a si própria.

Agradeço à Sic Radical por estar a transmitir os concertos em directo, o que me alivia não só a carteira como também o bichinho que me roía por não ter ido ver Amy ao vivo. Provavelmente, isto é tudo o que se poderia esperar da artista, mas o que é que querem, eu ainda tinha ilusões!

Agora vou voltar para o recato do sofá para ver um previsível, contudo certamente mais reconfortante, Lenny Kravitz.

Parabéns à banda de Amy Winehouse, que tudo fez para que a desgraça não fosse maior.

23 Maio 2008

Estatística Mentirosa?

Falamos de quê? Do Estudo da União Europeia agora divulgado, e hoje notícia em todo o lado.
Diz que Portugal é um país pobre e com muitos pobres?
Diz que há muito quem não tenha para comer?
Diz que há gente com menos de 10 euros por dia?
Não pode ser!
De certeza que o estudo foi feito por malta do BE ou do PCP ou a mando do Paulinho das Feiras ou até do PSD, num intervalozinho da luta de galos. Ou então é coisa do Manuel Alegre...
Seja como for, é mentira o que andam para aí a dizer sobre este país próspero e riquíssimo. E basta olhar à volta para ver o nosso desafogo, a abastança em que todos nadamos.
Não havia necessidade de se enganar o mundo a nosso respeito. Alguém anda a querer denegrir a nossa imagem!
Da próxima vez, se a União Europeia quiser um estudo sério sobre este (ou qualquer outro) assunto, deve pedir ao Governo português, que o Governo é que sabe, e fornece logo toda a informação.

16 Maio 2008

Pessoa e os Outros, o Acordo Ortográfico e a TLEBS

Finalmente, aquelas múmias assombrosas que se arrastam, desde há séculos, pelos corredores dos departamentos de Linguística das Faculdades de Letras, e que nunca puseram os pés na vida real, arranjaram maneira de justificar o dinheiro que ganham.
Depois da vitória da TLEBS, só faltava mesmo o acordo ortográfico para o triunfo ser total!
Regozigemo-nos! A asneira foi elevada à categoria de regra, com o apoio de ministros, deputados e Presidente da República.
Grande país este, que tem em cada político um linguista, e em cada eleito um professor de Português! Não há como este séc. XXI, para encontrar homens capazes de marcar a língua. Estes, sim, ficarão para a História.
Qual Camões, qual Pessoa, qual Vieira, qual Eça!
Um zarolho zaragateiro e pinga-amor; um esquizofrénico absintodependente; um beato de sacristia e um dandy aperaltado!...
Desapareçam, e deixem trabalhar quem sabe!
Fale-se verdade: estes autores, ditos "clássicos", com a sua mania de bem escrever Português, a sua minúcia, a sua piquinhice, só atrapalham os jovens, e têm contribuído para décadas de "chumbos" no ensino secundário! São, portanto, fortes responsáveis pelo atraso que temos em relação à Europa!
Ainda bem que, pela forma como estes escritores foram eliminados dos currículos escolares, daqui por uns tempos ninguém saberá quem são...
Apagadas as marcas da imposição literária e da doxa linguística, só faltará apagar dos compêndios os romanos, com aquela mania de imporem o Latim em toda a parte, e mais os árabes e os outros povos todos que passaram por aqui e que, infelizmente para nós, não eram mudos e sabiam escrever!
Quando tivermos conseguido eliminar todos estes engulhos à liberdade e à autonomia de falantes e escreventes, os nossos jovens poderão, finalmente, usar a língua como quiserem, e abrir as gargantas que só esta ditadura ignóbil tem mantido sob o jugo de regras gramaticais repressivas e de literatices castradoras! Será outro 25 de Abril!
Para evoluirmos mais depressa, sugiro à Ministra da Educação que institua já a obrigatoriedade do estudo (no ensino secundário) da poesia completa de Carlos Reis e de todos os romances de Malaca Casteleiro. Parece-me que analisar a estilística de folhas em branco e reflectir sobre a qualidade literária de textos inexistentes é a forma mais segura de garantir o sucesso dos nossos alunos.
E surge uma Nova Ordem: Os mortos, enterrados; os vivos, ... valha-nos Deus, Jemanjá, Buda, Alá e até Santa Engrácia, porque vão ser todos precisos!!!

14 Maio 2008

Aumento dos Combustíveis - Uma Necessidade

Nos últimos anos, adquirimos hábitos de país rico.
Subimos na vida quando trocámos o ensanduichamento suado da camioneta, do metro ou do bus pela ida de carro para o emprego, ensanduichados entre o trânsito.
Atingimos orgulhosamente a mediania de classe quando passámos a sair para lado nenhum aos fins-de-semana, palmilhando quilómetros e esbanjando sem destino, em vez de ficarmos no lar, amealhando prudentemente, e a pensar no amanhã.
Com a mesma convicção com que, a bem do ambiente, reciclamos latas, jornais, garrafas e afins, tornámo-nos fervorosos libertadores de CO2, de escape à solta pelas paisagens indefesas do jardinzinho luso, numa incoerente onda "ecolo" tão universal e interclassista que até já atingiu hoje o Primeiro-Ministro, em versão cigarrinho aéreo.

Mal vamos, pois vamos, e sem darmos mostras de contenção! Por isso, ainda bem que existe a Galp e a BP e este Estado a que chegámos para nos porem na linha.
A coisa é simples:
Quem não tem dinheiro fica em casa ou anda a pé.
Quem quer andar de carro, tem de ter dinheiro!
E quem tem dinheiro pode pagar. Mais cêntimo menos cêntimo - é igual.

Aquele que tem posses (como qualquer banal cidadão deste país desafogado) não lhe custa nada pagar um bocadinho mais, e para quem é pobrezinho, e precisa mesmo de auxílio (como a Galp e o Estado) 2 ou 3 cêntimos são uma ajuda inestimável.
Ainda bem que existem, a previdente Galp e o abnegado Estado!
Eles são uma espécie de Banco Alimentar contra a Fome, em compulsório peditório permanente.
Bem hajam pelo bem que fazem!
Convosco, o milagre é possível: afinal, podemos ser todos mais pobres!

05 Maio 2008

A Badoca - Fantástico Mundo Animal

Há muito tempo que a minha mãe se queixava de que não havia cão nem gato que não tivesse ido à Badoca (menos ela...), de maneira que lá aproveitámos a efeméride materna para viajarmos até ao parque alentejano que só por inércia ainda não tínhamos visitado.
A novidade do momento no safari é uma cria búfalo do congo, com quatro lindíssimas e sedosas semanas em cima do pêlo, e umas orelhinhas lindas.
No percurso a pé, o que faz parar o trânsito são duas crias lémures, que passam séculos coladas às mães, uma atracadinha às costas e outra alapadinha à barriga, fêmeas e crias a confundirem-se quase, trepadeiras, saltitantes de galho em corda e de corda em tronco.
É tão apelativa a observação do movimento e da imobilidade dos bichinhos, e os adultos concentram-se tão infantilmente na fotografia do fenómeno, que o mais divertido acabou por ser ver um paizão humano ( rico espécime de chico-esperto!) apanhar um belo esticãozinho no fio electrificado que adorna o topo da vedação, apesar do aviso bem visível que alertava para o perigo.
Outro animal fascinante apareceu-me durante o espectáculo das aves de rapina: uma mãe burguesota, de câmara digital em riste, rabo proeminente em calceta justa, mochilinha às costas, "palinhas" arrebitado, e óbvia indiferença pelo imenso, ininterrupto chavascal que os seus dois enternecedores rebentos de palmo faziam (nas barbas do abancado e ausente pai), friccionando irritantes carrinhos de metal no cimento dos muros de assento ou pontapeando a gravilha do chão, incapazes de (nos dar) um instante de sossego, e ignorantes do aviso do falcoeiro para que toda a gente permanecesse sentada.
Tão embevecida estava aquela dama, na sua imitação de menir fora do cromeleque, com a sua alta tecnologia apontada aos céus e a sua imbecilidade atracada ao cérebro, que teve de ser o falcoeiro a avisá-la de que se não saísse dali podia apanhar com o falcão na giga, porque estava exactissimamente e só na trajectória da ave.
Gostei mesmo de ir à Badoca! Não há como um bom parque animal para apreciar a espécie humana.

28 Abril 2008

Livro de Reclamações


Há um blogue abandonado pela dona, mesmo em dia de aniversário. E enquanto o blogue abandonado tenta sobreviver à custa de si próprio, o país não pára:


Há um Presidente da República com memória de galinha, a responsabilizar os partidos políticos pela ignorância e pela indiferença dos jovens em relação à política... como se ele não tivesse sido dirigente de um grande partido, e Primeiro-Ministro durante... dez anos, quase um terço da democracia.


Há um dirigente insular, ditador, trauliteiro, arrogante e totalitário, venerado por um Presidente da República, e que alguns vêem como um D. Sebastião capaz de salvar um partido e um país.


Há um ex-Primeiro-Ministro, engatatão e trapaceiro que continua a sonhar ser qualquer coisinha, e que continua a colher apoios de alguém que quer ser qualquer coisinha com ele.


Há um país anónimo a comemorar Abril como quem come um prato de caracóis.


Há uma fortuna gasta pelas autarquias, país fora, em fogo-de-artifício e espectáculos "mastiga e deita fora", numa espécie de comemoro-dependência gratuita e inconsequente.


Há um Benfica e um Sporting a precisar de ligação directa à rede de esgotos.


Há uma TVi que prepara efervescentemente o regresso apoteótico-botóxico de Manuela Moura Guedes.


Há um operador que diz que é MEO, mas que eu não quero, porque é mais caro que a concorrência.


Há duas adolescentes que morrem na praia, porque (ainda) não há nadadores-salvadores, porque ainda não abriu a época balnear.


Também há um ror de coisas boas:


Uns dias em família, uma amnésia ao sol, um relaxante e animado concurso de espantalhos em Cercal do Alentejo, umas festas de aniversário e um Quidam deslumbrantemente belo, harmonioso e sedutor, tudo para atenuar a dureza de um regresso ao trabalho, pois então...



07 Abril 2008

Alegrias

Nas escolas, a avaliação decorre com a maior das normalidades.
Na Assembleia da República, o acordo ortográfico, pérola da sapiência neo-latina, é defendido com unhas e dentes.
Na China, tranquila e serenamente, mostra-se ao mundo a força e o espírito do movimento olímpico.
No Porto, Pinto da Costa festeja o "tri" com um discurso de conciliação e respeito.
Nos Estados Unidos uma mulher morde um cão que ataca a sua cadela.
Na Disneyland Paris, a nova atracção gaba-se de fazer com que mesmo as pessoas mais descontraídas passem a ter medo de elevadores.

Com tanta harmonia, neste ambiente de felicidade, como é que me há-de apetecer assobiar?

02 Abril 2008

Joana Amaral Dias, o Prós & Contras e o Mistério do Prós & Prós & Mais ou Menos Contras

Porque é que Fátima Campos Ferreira não fez de Joana Amaral Dias Histéricos a convidada central do programa, se a promoveu tão descaradamente a protagonista?
Tenho uma sugestão para aquela psicologazinha arrogante, queque de esferovite, estriónica, ortodoxa e radical, com um estilo a meio caminho entre Cais do Sodré e Quinta da Marinha! Eu mandava-a fazer um estágio de 24 horas numa escolinha daquelas boas, a conviver com os seus "bons selvagens" e depois, quando a visse de pantanas (como tantos professores), mandava-a tratar-se no seu próprio consultório.
Arrepio-me toda só de pensar que se Mário Soares tivesse chegado a Presidente, talvez ela fosse a sua linda conselheira de Belém para a Educação, um cargo à altura das competências e polivalências que ela tão modestamente apregoou.
Assim, coitada, tenho mesmo pena dela: uma psicóloga tão boa, uma professora tão competente, com um currículo tão polivalente, uma segurança tão firme, uma sapiência tão incontestável e uma arrogância tão inabalável .. até é pena andar à semana!

PS: É mesmo "estriónica" (ou "estrónica") que quis dizer! Trata-se de um neologismo que me permito, para designar indivíduo em delírio profético, furioso depois de uma picada de insecto. O sentido pode ainda ser alargado, mas não vale a pena.
Não quero chamar-lhe histriónica, para não insultar os actores e os palhaços de verdade.

26 Março 2008

Amêndoa Amarga - Páscoa Venenosa

Desliguei-me da Internet mas, mesmo assim, esta Páscoa trouxe-me de novo a raiva e a indignação.
O folar entalou-se-me na garganta com a cena inenarrável da professora, da aluna e dos telemóveis.
Uma amêndoa recusou-se até a passar à goela quando ouvi o Sr. Albino dizer que os pais portugueses (educadores educados, atentos, disponíveis e justos) não educam assim os filhos.
O arroz doce pegou-se-me ao céu da boca com o discurso dengoso de Eduardo Sá sobre as crianças como a adolescente do Porto (seres sempre, sempre tão indefesos, stressados, desprotegidos e incompreendidos).

Os meus folares deste ano parecem ser feitos de fel, e o licor das minhas amêndoas sabe-me ao veneno que desde há trinta anos se espalha no sistema educativo, para eu engolir.
Contorce-se-me o fígado de cada vez que olho para um sorridente coelhinho de Páscoa, porque ele me lembra a indignação telegénica de um sindicalista qualquer.
Emborbulho-me de alergias a este assassinato lento da minha profissão e da minha dignidade.
O veneno espalha-se-me pelo corpo, e só me ocorrem barbaridades.

Num vómito, revejo histórias, retalhos desta miséria:
- a atarantação, a indiferença, a inoperância de Conselhos Executivos;
- a falta de solidariedade, o silêncio, a desvinculação de professores;
- a complacência, a atitude comprometida-compreensiva de Representantes dos Pais;
- o perdão apaziguador de Conselhos de Disciplina de Faz-de-Conta;

Num arrepio, constato misérias da nossa situação escolar:
- a falta de funcionários nos corredores e nos pátios das escolas;
- a impossibilidade física, concreta e objectiva de contactar os pais, de chegar à fala com eles;
- a dificuldade de afirmação da autoridade de professores, por medo, comodismo, conveniência ou estratégia de sobrevivência;
- a indisponibilidade/impossibilidade de Conselhos Executivos receberem queixosos em tempo útil e oportuno, ou seja, "JÁ", quando as coisas acontecem, e intervirem "AGORA", quando o gesto e palavra de qeum manda mais são fulcrais para a autoridade ferida do professor (e da escola).

Por mais voltas que lhe dê, o meu estômago não consegue digerir os Estatutos do Aluno (nem o novo nem o velho) que NÃO são punitivos nem dissuasores de violência, e que têm alimentado e continuarão a alimentar a impunidade a que chegámos.

Os ataques de alunos como a "criança" do Porto são miminhos, comparados com o que nos fazem todos os dias aqueles que mandam em nós ou os que se arvoram o direito de falar em nosso nome.

No fundo, nós, professores, é que somos mesmo uns tansinhos: deixamo-nos ficar a comer amêndoas e folares, enquanto acabam connosco em lume brando.

Não foi para morrer envenenada que eu quis ser professora.

25 Março 2008

Ai que saudades...

... do Cais das Colunas, no Terreiro do Paço, onde nos podiamos sentar um bocado e ficar a ver o rio e os barcos, de costas para a cidade e para a vida;

... do passeio ao longo do Tejo, entre o Cais do Sodré e a Baixa, onde os pescadores desportivos se entretinham e os casais de namorados se sentavam na relva de mãos dadas.

Ultimamente, parece que Lisboa só tem buracos, escavações, vedações e espaços que estão agora ocupados por imigrantes à espera de serem contactados por empreiteiros manhosos. Até as gaivotas, que dantes volteavam pelo céu, parecem agora mais tristes.

12 Março 2008

Thirteen

Li ontem no jornal que os pecados mortais passaram de 7 a 13.
O rol inclui agora a pedofilia, o aborto, a poluição do ambiente, a pobreza extrema e a riqueza escandalosa, o tráfico de drogas e as experiências de manipulação genética.

Fontes não confirmadas adiantam que o Inferno irá rapidamente reajustar a estrutura do seu Departamento de Recursos Humanos, para poder dar resposta à afluência de pecadores.

Eu tenho uma dúvida: um pobre que seja "extremamente pobre" vai directinho para o Inferno? Mesmo que não tenha molestado crianças, não tenha praticado abortos, não tenha atirado papéis para o chão, não tenha vendido um charro e não tenha manipulado geneticamente coisa nenhuma??

11 Março 2008

Apreensões sobre o Processo de Avaliação dos Professores

Recuar, não, porque é politicamente incorrecto.
Ceder, não, porque é politicamente fragilizante.
FLEXIBILIZAR!

Flexibilize-se, então! Mas, bolas!, flexibilize-se mesmo, e acabe-se com isto de cada qual interpretar prazos e normativos e providências cautelares como bem lhe apetece.

Haja alguém que tranquilize os legalistas, acalme os anarquistas e segure os loucos que andam à solta nas escolas!
Haja alguém que traga bom senso aos meus colegas que neste Inverno apanharam Grelhite em vez de Gripe.
Alguém, por favor, que trate a esquizofrenia dos fanáticos da planificação e dos militantes do estágio permanente.
Alguém, por misericórdia, que nos salve dos peritos em Complicacionação.
Alguém nos proteja desses Parametristas Compulsivos que têm, nestes últimos tempos, dado sinais de crise permanente.
Alguém faça perceber que é mais importante preparar - discreta e efectivamente!!! - aulas eficazes do que levar horas, dias, semanas a conceber meia dúzia de exuberantes planificações XPTO & Hi-Tech para encher o olho ao avaliador.
Alguém venha que diga que o melhor "portefolio" do professor são os materiais que ele já produz PARA os seus alunos (e não os que há-de criar em honra do avaliador), e é o trabalho que ele desenvolve COM e PARA os seus alunos (e não para o avaliador), e são os trabalhos que ele corrige DOS seus alunos.
Alguém diga que o tempo do professor deve servir para muita coisa, mas não deve servir para o desviar do que é mais importante: ensinar alguma coisita aos seus alunos, de preferência a cada aula, ao longo de TODO o ano lectivo (e não apenas nas aulas assistidas pelo avaliador) e de preferência mais qualquer coisinha do que "alguma coisita"...
Se ao menos este sistema de avaliação servisse para distinguir estas coisas!...
Se ao menos o nosso sistema educativo se preocupasse menos com a fachada e mais com a qualidade das canalizações e do saneamento básico do edifício...
Ai, ai!... ... ...

06 Março 2008

Silêncio! Estou a Manifestar-me!

Manifestação de professores em silêncio, propôs a Tempo de Teia, e eu não posso estar mais de acordo.
Há dias que ando a defender isso mesmo, junto dos colegas mais próximos.
Porquê?
Porque acho que a nossa melhor arma deve ser o silêncio, face aos critérios de escolha que as televisões têm evidenciado, quando decidem dar a palavra aos professores manifestantes, apostando quase sempre nos mais ineficazes, certamente para demonstrar que os professores nem sequer sabem por que reclamam.
O mais prudente é o silêncio, face à falta de substância da maioria dos depoimentos recolhidos, a comprovar a dificuldade que muitos têm em "explicar" as honestas razões que os movem.
O que tem mais impacto é o silêncio, face à inutilidade de uma cantilena estereotipada e monótona que a TV explora à exaustão, e que reduz a nobreza e a justeza desta causa a um mero pedido de demissão da Ministra da Educação.
O silêncio parece-me a forma ideal de mostrar que esta não será apenas mais uma habitual e batida manifestação "sindicalizada", e que nela se cruzam muitas e diferentes sensibilidades que se respeitam.
O silêncio marcaria a diferença, a grandeza e a dignidade da função docente, face à impressão negativa que a opinião pública tem de nós.
A não ser que a manifestação seja apenas um acto catártico (se for apenas isso, é muito pouco) o silêncio será muito mais expressivo do que todas as palavras de ordem do mundo.
Que não se pretenda ver nesta minha posição qualquer intuito censório ou castrador, qualquer medo ou preconceito. É apenas a minha convicção, obviamente discutível.

Uma coisa sei: a minha revolta e o meu descontentamento não são, nem em um milímetro, inferiores aos de um colega que no sábado fique rouco de tanto gritar.

04 Março 2008

O Conselho Científico para a Avaliação de Professores (CCAP)

Andou meio mundo a reclamar, durante semanas a fio, contra a inexistência real e objectiva do CCAP. Parecia unânime a convicção de que o funcionamento pleno deste Conselho era fundamental para o desenrolar do processo de avaliação dos professores; era absolutamente inaceitável que o seu único membro fosse a sua presidente, por mais mérito que possa ter.
Num gesto político que "só" peca por muito tardio, o Ministério da Educação nomeia os membros do CCAP e tira habilmente da cartola um elenco que, do meu ponto de vista, é equilibrado. Reconheço, naquela composição, conhecimento científico, provas dadas, prática do/no terreno e bom senso, qualidades que tenho como indispensáveis para o desempenho das funções exigidas.
Na blogosfera, caiu o Carmo e a Trindade quando José Matias Alves (JMA) anunciou ser membro deste CCAP.
Em vez de se regozijarem por se sentirem bem representados por alguém que tanto tem contribuído para, com sabedoria, pôr algum norte na desorientação das escolas, os mesmos que sustentaram o seu próprio vazio de ideias nas opiniões de JMA atiram-lhe agora pedras, como se fosse crime tentar contribuir para melhorar o que é muito mau.
Mais, não só o condenam, como o insultam.
É assim que nós nunca vamos a lado nenhum.

03 Março 2008

Ainda a educação (ou de como a Ministra pode vir a ter novo Assessor)

Tenho andado um pouco (muito) atafulhada de trabalho até fora de horas, e também ocupada com a presença de um novo ser de 4 patas lá em casa, mas já percebi que o tema "educação" tem estado aqui em alta!

Do pouco que tenho visto na TV, percebo perfeitamente as angústias do Assobio, mas cada vez se ouvem mais "bitaites" engraçados. Como este, por exemplo:

Jorge Coroado, ex-árbitro de futebol, era ontem o convidado do Jornal das 11H da Sic Notícias para comentar a imprensa do dia e os acontecimentos da semana. A propósito do descontentamento da classe docente, diz ele que "toda a gente sabe que, há mais de 33 ou 34 anos atrás, era hábito os professores sacarem aos alunos informações que depois transmitiam ao regime e que, nessa época e mesmo depois, os professores têm sido uma classe habitualmente tratada com deferência. Ora, ser avaliado é uma coisa normal nos dias de hoje e não perecebo por que motivo os professores estão com medo de se sujeitarem a essa avaliação. Tal como não compreendo o motivo pelo qual há dias uma professora dizia que tinha medo de ser avaliada por uma pessoa que não gostasse dela, nem do trabalho dela, porque afinal há mecanismos que servem de garantia nestas situações".

É verdade que o meu QI baixo pode não ter atingido o cerne da questão, mas isto cheirou-me a desejo de vingança pobrezinha, do género "toma lá, que se eu ouvi tanto palavrão em campo, tu bem podes ir esquecendo a deferência". Sim, porque é claro que o fado é que induca, o vinho é que instrói e quem não é do Benfica...

Ou então Coroado procura apenas um lugar de assessor, agora que deixou o futebol. Vendo bem, tem o raciocínio alinhado com o da Ministra e uma ponta de desdém socrático. Só não sei se Maria de Lurdes Rodrigues vê televisão ao Domingo de manhã.



02 Março 2008

"Este País Não É para Velhos" e "Haverá Sangue", "Expiação" ou Obsessões de Professor

Façamos de conta que isto da educação não é nada connosco, e toca a falar de cinema.
"No Country for Old Man" agradou-me muito mais do que "There will be Blood", independentemente do mérito do oscarizado Daniel Day-Lewis, que é aliás, quase a única mais-valia de um filme castanho e viscoso.
A história dos irmãos Coen, em contrapartida, trouxe-me de volta o cinema que mexe comigo na cadeira, cinema de emoções, revoltas e angústias.
Enquanto, no final, a ficha técnica do filme ia desfilando, senti-me quase como o xerife Bell (Tommy Lee Jones).
Ele via passar à sua frente o crime contra inocentes, a violência, a agressividade sem limites, e sentia-se impotente, ainda que imbuído de autoridade legal para agir.
Eu vejo passar à minha frente a violência sobre os professores, a crispação de uma equipa ministerial que não dá tréguas à minha dignidade profissional, e também me sinto impotente, embora saiba que a razão e os tribunais estão comigo.
Além disso, o penteado da personagem de Javier Bardem fez-me vagamente lembrar o da Ministra da Educação. E assustou-me pensar que eles possam ter em comum a sua brilhante determinação e a sua intransigente (in)sensibilidade. Ele, como ela, ambos seguros do seu caminho, obstinados, contra tudo e contra todos, na cruzada em defesa daquilo em que acreditam.
E, já agora, não é também determinação o que caracteriza a vida do homem do petróleo, no filme de Paul Thomas Anderson, devorado pela sede de poder e de domínio sobre tudo e sobre todos, completamente esquecido de criar humanidade?
Até me estou a arrepiar.
"Vai-nã-vai", comparação por comparação, lembro-me ainda de Briony Tallis, a irritante personagem principal do belíssimo "Expiação", de Joe Wright.
Quando Briony se apercebe de que a sua atitude arruinou definitivamente a vida de outras pessoas (e abalou a sua própria existência), é já demasiado tarde para corrigir o erro. A calúnia que lançou sobre o jovem Robbie não se apaga, os danos causados são irreversíveis, e o rapaz morrerá sem que o seu bom nome seja reabilitado e sem que tenha lugar o seu reencontro com a mulher que ama.
A atenuar a sua conduta, Briony ainda pode ter a seu favor o facto de ser uma criança, ingenuidade, blá-blá-blá...; quanto à Ministra da Educação, já é uma senhora.

O cinema é assim, extraordinário.

01 Março 2008

Assembleia Municipal de Santiago do Cacém-Índices de Produtividade

A sessão teve início antes das 21.30.
À meia-noite, os deputados ainda não tinham sido capazes de entrar na Ordem de Trabalhos.
Depois de acesas e inconsequentes discussões sobre assuntos vários, cada qual ficou na sua, e o máximo produzido foram duas moções sobre a greve dos trabalhadores de uma ETAR local.
O assunto em causa é muito sério, porque as condições de trabalho daqueles homens são degradantes, e porque se a ETAR não funcionar em condições, os resíduos industriais do complexo de Sines vão direitinhos para o Atlântico... mas não parecia ser essa a preocupação de toda a gente.
O que eu lamento é que sete ou oito trabalhadores tenham sido (e sejam) assim usados como joguete político, ao sabor de interesses meramente ideológico-partidários.
O que lamento ainda mais é que naquela Assembleia Municipal se arranja sempre maneira de ficar com pouco tempo para discutir assuntos municipais.
Porque será que a alguns interessa tão pouco discutir os problemas que afectam tantos?...

27 Fevereiro 2008

Os Professores e os Políticos e a Educação: Estranhezas e Tristezas

Este PSD, que agora se senta a ouvir a Fenprof, é o mesmo cujo governo se recusou a negociar com a Fenprof, por não lhe reconhecer legitimidade?
Este PS é o mesmo que tinha particulares preocupações com a classe média, e com os professores e com a escola pública?
Os partidos políticos da oposição estão realmente interessados nos problemas da educação, ou estão apenas a tentar explorar um enorme filão eleitoral?
É que eu não me esqueço: o sistema educativo que temos é o fruto da contribuição empenhada, activa, do PS e do PSD (e do CDS) que, legislatura após legislatura, nos foram edificando este castelo de farófias balofas a que chegámos. Quanto aos dois "maiores", estamos conversados.
No que diz respeito aos "pequenos", infelizmente, nunca lhes ouvi uma ideia consistente, um projecto alternativo, um rumo definido ou estruturado. Ao longo dos anos, avulsamente, as "oposições" foram apenas reagindo a isto ou àquilo, refutando uma medida, bufando contra outra, interpelando daqui, agitando dali, convocando mais manifestação menos manifestação, manipulando sempre que possível, mas sem alternativas.

Quanto a mim, é muito pouco o que a nossa classe política tem feito pela educação, talvez porque a nossa classe política saiba muito pouco de educação.
Quanto aos professores, se excluirmos o facto de darem aulas, gerirem escolas, educarem crianças e produzirem boa parte da papelada em que eles próprios se enterram, também não têm dado grande coisa à educação. Mas isso é outra conversa.
Aos políticos, interessa-lhes, obviamente, professores que saibam dar aulas, mas não professores que percebam de educação.

Infelizmente, a pobreza dos argumentos esgrimidos pelos docentes no programa "Prós & Contras" desta semana, ou a miséria dos depoimentos individuais recolhidos nas manifestações de Coimbra e do Norte do país, ontem e hoje, mostram a nossa realidade:
- protestamos porque nos sentimos pessoal e individualmente lesados e humilhados, e por isso protestamos AGORA, e não antes, porque agora é pior do que nunca;
- protestamos porque ideologicamente temos de protestar, e protestamos agora, como protestámos ontem, como protestaremos amanhã, como protestamos sempre, porque somos sempre do contra, seja qual for a política, seja qual for o governo...
Sinceramente, é pouco e é, sobretudo, pobre.

À classe docente falta, por exemplo:
1)consciência de classe que nos permita encarar os problemas individuais numa perspectiva global;
2) ética e deontologia que nos leve a criticar-avaliar directamente um colega nos locais próprios, apontando-lhe construtivamente um erro, para que ele deixe de o cometer; em vez disso, tendemos a encolher desinteressadamente os ombros às críticas que ouvimos pais ou alunos fazerem a esse colega, ou (pior, ainda!) somos capazes de nos juntarmos a eles no "corte & costura" a um professor.
3) brio, dignidade e orgulho profissional, para não andarmos nas ruas a chamar mentiroso a um Primeiro-Ministro e a assobiar uma Ministra, por mais motivos que tenhamos para o fazer.

Há coisas que eu acho que não ficam bem a um professor, porque penso que um professor tem de ser um professor.
Um professor é, em princípio, um indivíduo mais culto, mais educado, mais civilizado do que a média da sociedade. A sua conduta é um exemplo para os seus alunos, e é essa conduta que lhe dá um estatuto de respeitabilidade. Foi assim que, ao longo de décadas, os professores foram das pessoas mais consideradas dentro de uma comunidade.
Hoje, queixamo-nos de que somos desconsiderados, mas se queremos ser tratados com respeito, temos de fazer alguma coisa por isso.
Temos de ser os primeiros a dar, de nós próprios, a imagem que queremos que os outros tenham de nós.
Há muito trabalho pela frente, se quisermos realmente recuperar o estatuto social perdido.
Evidentemente, é sempre mais fácil eternizarmos o nosso incompreendido lamento de vítimas da sociedade e do Estado. Mas não sairemos da cepa torta.
É claro que nada disto é incompatível com a necessidade de mostrarmos e demonstrarmos ao mundo inteiro a injustiça de que temos sido vítimas.
O melhor, mesmo, é fazermos alguma coisa por nós!

26 Fevereiro 2008

Óscares... e Prós & Contras

Em 1988, Dustin Hoffman conquistou o Óscar para melhor actor pelo seu desempenho de autista em "Rain Man" (Encontro de Irmãos).
O actor teve sorte em fazer o filme naquela altura. Se fosse hoje, a Ministra da Educação arrebatar-lhe-ia o lugar, porque ninguém faz de autista como ela, a avaliar pela sua participação no "Prós e Contras" de ontem à noite.

Mas, naquela emissão, não foi a Senhora Ministra a única responsável pela minha azia.
Irritou-me tanto a arrogância da Ministra como a do "jovem" e crispado professor que apenas foi capaz de a insultar: estão bem um para o outro, e não me revejo em qualquer dos dois estilos. (Se tivéssemos a pouca sorte de ter aquele rapazinho como Ministro, as suas verdades não seriam menos impositivas do que as da actual tutela).
Quanto ao "melhor professor do ano", comecei por achar piada ao tom simples do seu senso-comum, mas acabei a vê-lo como "Professor Banal", e acho que lhe faltou coragem para chamar "os bois pelos nomes". Seria por medo de perder o título?
O Sr. Albino ficou muito bem a suspirar por Salazar, a ver se assim os pais percebem quão bem representados estão. Escusado será dizer que uma escola com este homem à frente do Conselho Geral será um modelo de democraticidade para o mundo inteiro.
E João Formosinho, em que saco meteu ele o seu discurso sobre (a falta de) autonomia? Quando quisermos citá-lo, sobre o assunto, pegamos no que ele já publicou ou agarramo-nos à figurinha que ele fez ontem à noite? É que não bate a cota com a perdigota!
Felizmente, houve outros professores que, de vez em quando, nos intervalos da falta de substância, lá foram conseguindo apontar uma ou outra questão concreta, daquelas que, verdadeiramente, desmontam a desgraça que se abateu sobre a educação.
A RTP deveria ter feito como a TVE (sobre o debate Aznar/Rajoy), uma sondagem no final do debate, só para eu saber quem é que o cidadão comum considerou vencedor...
A mim, o debate custou-me 2 boas fatias de bolo de chocolate, às 2 da manhã.
É preciso muito acúcar para adoçar uma alma de professora indignada.